Mentira

Digamos que um homem chamado Paulo esteja atraído por uma mulher chamada Elaine. Ele a convida para ir ao cinema; ela aceita; e eles passam uns bons momentos juntos.
Alguns dias depois ele a convida para jantar, e novamente eles adoram a companhia um do outro. Eles continuam se vendo regularmente e logo nenhum deles está saindo com outra pessoa.
E então, numa noite, eles estão retornando de carro para casa dela, e Elaine em um pensamento. Sem pensar muito ela diz alto:
– Você percebeu, que, como hoje, nós estamos saindo juntos há exatamente seis meses?
E então há aquele silêncio no carro. Para Elaine, parecia uma eternidade. E logo ela pensa com ela mesma:
“Que burra! Eu tinha que fazer este comentário logo agora? Isto pode ter chateado ele. Talvez ele esteja se sentindo preso pelo nosso relacionamento; talvez ele pense que eu o esteja pressionando para um compromisso que ele ainda não quer, ou ainda não está bem seguro disso”.
E Paulo está pensando:
“Puxa! Seis meses!”
E Elaine pensa:
“Hei! Mas eu também ainda não estou certa de querer este tipo de relacionamento. Às vezes eu penso que seria melhor eu conservar o meu espaço, eu tenho que pensar se eu quero continuar avançando nesta direção, e saber para onde estamos indo? Vamos continuar nós vendo um ao outro neste nível de intimidade? Estamos caminhando na direção de um casamento? De filhos? Enfim, de uma vida longa juntos? Estarei eu pronta para este tipo de compromisso? Eu realmente conheço esta pessoa?”
E Paulo está pensando:
“Então isto significa que foi… vejamos… Fevereiro, quando nós começamos a sair juntos foi exatamente quando eu comprei este carro na concessionária. Isto significa… Deixa-me conferir o velocímetro… Puxa! Eu já passei da quilometragem para a revisão dos 5.000 Km”.
Elaine esta pensando:
“Ele está preocupado. Posso ver na sua face. Talvez eu devesse ter ficado com a boca fechada. Talvez ele queira mais do nosso relacionamento, mais intimidade, mais cumplicidade; talvez ele tenha sentido – mesmo antes de eu sentir – que eu estava me reservando demais. Sim, eu aposto que e isso. E por isso que ele está tão relutante em dizer alguma coisa sobre seus sentimentos. Ele está com medo de estar sendo rejeitado”.
E Paulo esta pensando:
“Eu preciso levar o carro para eles verem esse barulho na transmissão novamente. Não importa o que eles dizem, o barulho diminuiu, mas continua. Eles vão dizer que o motor esta amaciando. Mas que amaciando? Com 5.000 KM? E melhor eles nem tocarem nisso. “Amaciando” era para os motores de 30 anos atrás… Estamos quase no ano 2000, e este carro está fazendo um barulho como se fosse um caminhão de lixo. E eu paguei R$ 22.000,00 a aqueles ladrões por este carro”.
E Elaine esta pensando:
“Nossa! Ele está mesmo zangado e eu não o culpo. Eu estaria também zangada. Deus, eu me sinto tão culpada, colocando-o na parede desse jeito, mas a maneira como me sinto não vai ajudar em nada. Só que eu não muito estou certa…”
E Paulo está pensando:
“Eles provavelmente vão dizer que o carro agora está fora da garantia. Isso é exatamente o que eles vão dizer, aqueles salafrários. Na hora de vender eles prometem tudo. Agora…”.
E Elaine ainda pensa:
“Talvez eu seja muito idealista esperando por um cavaleiro montado em um cavalo branco, enquanto eu estou sentada ao lado de uma pessoa boa, uma pessoa com quem eu gosto de estar, uma pessoa com que eu me sinto bem, uma pessoa que parece verdadeiramente se interessar por mim, e que esta chateado agora devido ao meu egoísmo, sonho de meninice, e de fantasia romântica”.
E Paulo está pensando:
“Garantia? Eles querem garantia? Eu dou esta maldita garantia. Eu vou pegar esta garantia e falar para eles para enfiarem…”
– Paulo – fala Elaine alto.
– O que? – diz Paulo.
– Por favor, não se torture com isso! – diz ela, seus olhos começam a brilhar com lágrimas – Talvez eu não devesse ter comentado… OHH! Eu me sinto tão… Elaine para e soluça.
– O que? – diz Paulo, preocupado em tentar relembrar algo que ela tivesse ter dito e que ele não tivesse prestado atenção.
– Eu sou tão tola – Elaine soluça – Eu quero dizer, eu sei que não há nenhum cavalheiro. Eu sei realmente. Que tolice. Não há cavaleiro e não há nenhum cavalo.
– Não há nenhum cavalo? – diz Paulo.
– Você deve pensar que eu sou uma tonta, não e? – diz Elaine.
– Não! – diz Paulo, feliz por finalmente saber uma resposta correta.
– É somente… É somente que… Eu preciso de algum tempo – diz Elaine.
Passam-se uns 15 segundos até que Paulo, tentando pensar tão rápido quanto podia, pudesse achar uma resposta segura. Finalmente ele vem com uma que ele pensa que pode dar certo. Afinal não queria revelar que não estava entendendo sobre o que ela estava falando.
– Sim – diz ele.
Elaine, profundamente comovida, toca a sua mão.
– Oh, Paulo, você realmente sente desse modo? – diz ela.
– Sobre o que? – diz Paulo.
– Sobre o tempo – diz Elaine.
– Oh – diz Paulo – Sim.
Elaine vira o rosto dele para ela e olha em seus olhos, causando nele um certo nervosismo sobre o que ela poderia falar em seguida, especialmente se envolvesse um cavalo.
Por ultimo ela fala:
– Obrigada, Paulo. Você é maravilhoso – diz ela.
– Obrigado, você também – diz Paulo.
Então ele leva ela para casa, e ela deita em sua cama, e conversa com sua torturada alma, e se vira pra lá e pra cá, até altas horas na madrugada enquanto Paulo, volta para seu apartamento, abre um pacote de batatas fritas, liga a TV, e começa a ver o replay de um jogo de tênis de dois jogadores tchecoslovacos que nunca havia ouvido falar antes. Uma voz no fundo da sua mente lhe dizia que poderia haver algo mais sério relacionado com o barulho que ele estava tendo no carro, mas ele não podia deduzir nada. Não entendia nada de mecânica. Então era melhor não pensar mais nisso…
No dia seguinte Elaine telefonará para sua melhor amiga, ou talvez duas delas, e elas conversarão sobre esta situação por seis horas sem parar. Elas analisarão, em detalhes tudo que ela falou, o que ele disse e revisarão muitas vezes, explorando cada palavra, expressão, e gestos para entender as nuances, e considerando cada possível ramificação. Elas continuarão discutindo este assunto muitas vezes, por semanas e meses, nunca chegando a uma conclusão definitiva, mas nunca se enchendo de tocar no assunto.
Neste meio tempo, um dia, Paulo, enquanto joga tênis com um amiga comum dele e da Elaine, faz uma pausa antes de tomar um copo de água e pergunta:
– Cristina, a Elaine tem algum cavalo?
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